Restauração da justiça: uma postura de amor. Sobre a crônica do congressista e do Juiz

Por Antonio Fonseca

 

A República promete o acesso de todos à riqueza da nação (CR, art. 3º). A norma fundamental mais ou menos conecta amor e compaixão, comando centrado no Cristo: amai a Deus de todo o teu entendimento e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22, 37-39; Mc 12, 28-34). A corrupção está para o acesso igualitário da República, assim como o pecado está para o comando cristão; ambos,
corrupção e pecado, representam uma pedra no meio do caminho que frustra aquele acesso igualitário, o equivalente à meta teológica: antecipação do paraíso na terra.

A teologia do amor divino propõe resolver a frustração com uma abordagem muito clara: severidade com o pecado, mas graça, acolhimento e paciência com a pessoa do pecador. Isto não significa pegar leve com o pecador; só com o arrependimento sincero deste lhe é oferecido refrigério e misericórdia. São várias as passagens que validam essa espécie de restauração do amor ou da justiça. A postura do mestre Jesus não ignorava o pecado; Ele recebia os pecadores para transformá-los.

No confronto daqueles que queriam apedrejar uma pecadora, Jesus propôs: “aquele dentre vós que está sem pecado que atire a primeira pedra” (Jo 8,7). Se um irmão pecar, deve-se ir a ele a sós, com mansidão, para ganhá-lo ao invés de expô-lo imediatamente. Corrigir com amor e sabedoria é a lição de Mateus, 18, 15-17.

Nunca a graça divina justifica o pecado. O perdão é uma contrapartida pelo reconhecimento do pecado, arrependimento genuíno e correção apropriada. A orientação de vencer o mal com o bem
(Rm 12, 21) está centrada no “vencer o mal”, com o objetivo de restaurar a justiça, o amor. Este é o fio salvífico que vai de Gênesis ao Apocalipse.

No questionamento da colunista, “quem abusou da autoridade: o ministro ou o senador” (FSP, 21/4/26), a crônica deixa muita coisa sem resposta. Há mais de três décadas a sociedade aguarda,
tolerantemente, embora com algum ensaio de janeiro, por um compromisso integral na promessa republicana do acesso de todos à riqueza da nação. Diante do fenômeno da escassez sistêmica que qualifica toda economia, fora da integridade o acesso igualitário prometido não se realiza jamais. Em obséquio ao acesso qualificado, qualquer reforma do Estado precisa enfrentar e vencer com primazia o mal maior: a descapitalização da confiança de que sofre a Justiça como sistema.

 

Antonio Fonseca é PhD em Direito econômico e estudante de Teologia

 

* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade do autor e não, necessariamente, a opinião do IES

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