O futuro da saúde exige ética, inovação e acessibilidade

Por Guilherme Ambar 

 

Quando falamos em futuro, geralmente pensamos em modernidade, em soluções que parecem saídas de um filme de ficção científica. Na saúde, essa visão se traduz em avanços como a cirurgia robótica, a nanotecnologia, a realidade aumentada aplicada a treinamentos e procedimentos, além de biossensores que hoje podem ser integrados a relógios, tablets ou até casas inteligentes. Tudo isso já está presente. Mas a questão central é: de que adianta termos tecnologias incríveis se não conseguimos aplicá-las de forma acessível, ética e sustentável?

A história da medicina mostra que a inovação é constante. Do estetoscópio do século XIX ao CRISPR – técnica que revolucionou a biotecnologia agindo como uma espécie de “tesoura molecular”, permitindo a modificação de sequências de DNA em organismos vivos – sempre estivemos cercados de descobertas transformadoras. A pandemia de Covid-19, porém, nos trouxe um aprendizado marcante: não basta ser sofisticado, é preciso ser escalonável, rápido e democrático. Uma inovação que não chega a quem mais precisa se transforma em privilégio, não em solução.

Nesse cenário, a inteligência artificial é um exemplo interessante. Embora hoje esteja em evidência, sua utilização em saúde começou ainda nos anos 1970. Hoje ela se popularizou, auxiliando em diagnósticos, produção e até na logística de insumos. Mas a IA só é realmente eficaz quando se baseia em dados confiáveis e bem estruturados. Caso contrário, repete desigualdades e aprofunda barreiras de acesso.

É aqui que entra a discussão ética. O futuro da saúde não pode ser apenas uma corrida por quem lança a tecnologia mais avançada ou quem acumula os maiores bancos de dados. Precisamos pensar em relações comerciais responsáveis, em modelos de negócio que valorizem a transparência e a colaboração entre empresas, governos e startups. A inovação só cumpre seu papel quando se traduz em benefício coletivo, e não em exclusividade.

A infraestrutura também desempenha um papel social. O 5G, por exemplo, não é um instrumento médico, mas ampliou radicalmente o alcance da telemedicina e dos dispositivos domiciliares, permitindo que comunidades distantes tenham acesso a serviços antes inimagináveis. Mas ainda enfrentamos o desafio de garantir que todos tenham acesso a celulares, conectividade e educação digital. Sem isso, a promessa da tecnologia se perde.

Por isso, acredito que o futuro da saúde não será definido apenas pela sofisticação, mas pela capacidade de equilibrar três pilares: redução de custos, aumento da acessibilidade e compromisso ético, com fiscalização incansável da sociedade.

Nesse contexto, startups desempenham um papel essencial. São elas que muitas vezes trazem as ideias mais ousadas e disruptivas, mas precisam de apoio para transformar essas ideias em realidade. Grandes empresas e instituições têm a responsabilidade ética de colaborar, criando pontes em vez de barreiras.

O Brasil, felizmente, tem se destacado nesse aspecto. Vemos agências regulatórias e iniciativas públicas e privadas trabalhando para democratizar o acesso, promovendo discussões sobre ética e estimulando soluções que sejam realmente inclusivas. Isso mostra que, às vezes, dar um passo atrás na sofisticação é o que permite dar dois à frente na universalização.

 

Guilherme Ambar é biólogo e CEO da Seegene Brasil 

 

* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade do autor e não, necessariamente, a opinião do IES

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