Por Patrícia Braile
Os tempos de ódio não são novos. A humanidade sempre julgou, excluiu e buscou culpados. O que mudou foi a velocidade e o alcance com que hoje se destila rancor. Basta apertar as letrinhas do teclado de uma tela para que palavras sejam lançadas sem filtro, sem escuta e sem responsabilidade.
Julga-se antes de ouvir. Condena-se antes de compreender. A palavra, que deveria construir pontes, transforma-se com frequência em instrumento de ataque. Esse empobrecimento do discurso não é superficial. O ódio verbal prepara o terreno para algo extremamente perigoso: o ódio estrutural.
A desumanização do outro abre espaço para o egoísmo, para a indiferença diante do sofrimento e, em seu estágio mais grave, para a corrupção. A corrupção na saúde mata. Mata quando desvia recursos da saúde. Mata quando naturaliza injustiças. Mata quando transforma pessoas em números e em cifrões.
A corrupção não nasce de grandes falhas institucionais ou lacunas legais. Ela nasce pequena, do egoísmo silencioso, da falta de empatia, do imediatismo e da quase imperceptível ausência de caráter. Quando o interesse próprio se sobrepõe ao bem comum e o ganho imediato vale mais do que as consequências, o terreno ético vai se deteriorando pouco a pouco.
Antes do ato ilegal, vem a relativização do erro. Vem a tolerância com pequenas transgressões. Vem a incapacidade de chamar o inaceitável pelo nome. Nesse ponto, rompe-se um pacto essencial: o da confiança social.
A tradição bíblica nos lembra que “a boca fala do que está cheio o coração”. Palavras revelam valores. Cuidar da linguagem é, portanto, cuidar da consciência. É um exercício ético, espiritual e civilizatório.
É por isso que exemplos concretos de integridade importam. O Instituto Ética Saúde e seu modelo de Acordo Setorial mostram que é possível substituir a lógica do “cada um por si” por compromissos públicos e privados pautados na transparência e na busca do bem comum. A premissa é simples e decisiva: as relações jamais podem ocorrer à custa da vida humana.
Mais do que reagir à corrupção, o modelo de Autorregulação que permeia os pilares do Instituto, atua na sua origem. Estabelece padrões comuns, fortalece a governança e demonstra que ética não é vantagem individual, mas responsabilidade coletiva, um pacto de cuidado com as pessoas, com os recursos públicos e privados e com o futuro.
Os filósofos estoicos nos lembram que não controlamos os acontecimentos, mas somos responsáveis por nossas escolhas. Não impedimos o ódio alheio, mas podemos decidir não reproduzi-lo. Não eliminamos a injustiça, mas podemos agir com retidão, mesmo quando isso não nos traz certas “vantagens”.
Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio ensinaram que a verdadeira força está na virtude silenciosa, na coerência entre valores e ações, e na recusa em permitir que a degradação moral do ambiente nos transforme.
Não perder a fé na humanidade não é ignorar seus erros. É reconhecê-los e, apesar deles, escolher diariamente não ampliá-los. É usar as palavras com responsabilidade, agir com integridade e compreender que cada escolha ajuda a definir o tipo de sociedade que estamos construindo.
Porque, no fim, palavras são escolhas.
E escolhas constroem destinos.
Patrícia Braile é vice-presidente do Conselho de Administração do Instituto Ética Saúde
* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade da autora e não, necessariamente, a opinião do IES
Excelente texto !
Excelente post! Informação de qualidade e muito atualizada. Vou acompanhar as próximas postagens do site com certeza.Viva sorte resultado