Por Marcos Tadeu Machado
Em 2013 na China , muitos duvidavam de que a campanha anticorrupção de Xi Jinping duraria. As próprias autoridades chinesas precisavam repetir que não era “apenas uma rajada de vento”. Em janeiro de 2026, Xi reafirmou: “a situação na luta contra a corrupção continua grave e complexa”.
Os números do South China Morning Post mostram que a dúvida acabou:
* 983 mil pessoas punidas no último ano
* 3 vezes mais altos funcionários afastados do que em 2013
* 60% dos derrubados entre 2013 e 2025 atuavam em governos regionais
A promessa de combater “tigres e moscas ao mesmo tempo” virou método. A campanha alcançou segurança, finanças, educação e até os próprios fiscais da corrupção. Derrubou dirigentes de topo nas 31 jurisdições provinciais e, nos últimos dois anos, chegou à cúpula militar. Em 2018, ganhou base legal com a Comissão Nacional de Supervisão. E as “regras de austeridade de oito pontos”, que proíbem presentes, carros de luxo e recepções suntuosas, seguem em vigor.
Há ressalvas. Na China, falta o contrapeso de imprensa livre e Judiciário independente, e o conceito de corrupção passou a incluir a adesão às diretrizes do partido. O exemplo vale pela persistência, não pelo método.
E o Brasil? Aqui, a indignação dura o tempo de uma manchete. Quantos pacotes de integridade perderam força com a troca de governo? Integridade exige continuidade, e continuidade é o que falta em Brasília.
Ao Executivo e aos ministérios: transparência total em contratos, compras e nomeações, com critério técnico e não indicação política. Ao Legislativo: emendas e gastos de mandato rastreáveis até o último centavo, e ninguém legislando em causa própria.
Ao Judiciário, a cobrança é mais dura: quem julga não pode ser o primeiro a precisar de julgamento. Ninguém é juiz em causa própria, nepotismo não tem brecha e, onde houver desvio, investigação independente e punição, sem corporativismo. Um Judiciário que exige integridade de todos precisa, antes, comprová-la.
Regras simples de conduta, como limites a presentes, recepções e viagens, precisam valer para todos os Poderes, sem penduricalhos e sem privilégios disfarçados, com canais de denúncia protegidos e punição rápida, e não só resposta a escândalos.
Na saúde, o preço é ainda mais cruel: cada real desviado de um hospital, de um medicamento ou de um equipamento vira atendimento que não acontece. Corrupção não é só crime contra o erário, é crime contra a vida.
Precisamos cobrar de Brasília o que a sociedade já cobra. A China tem outro sistema e outros métodos, que não devemos copiar. Fazer isso dentro da democracia e do Estado de Direito é possível, e é urgente. A lição é universal: quem leva o combate à corrupção a sério não descansa. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de descansar.
Marcos Tadeu Machado é Presidente do Conselho – Biomedical & MSB-Brasil e Cofundador do Instituto Etica Saúde
* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade do autor e não, necessariamente, a opinião do IES