Por José Roberto Luchetti
Vivemos em um mundo marcado por tensões crescentes e por dezenas de conflitos ativos ao redor do globo. Segundo a brasileira Monica Villela Grayley, chefe da redação de língua portuguesa da ONU News e autora do livro “A Língua Portuguesa como ativo político”, atualmente são 61 guerras, um número recorde desde 1946. Em meio a esse cenário, e nesses dias de realização da 80ª Assembleia Geral, quando a ONU completa também 80 anos, o Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, tem reiterado que o caminho da paz só pode ser trilhado por meio do diálogo, da diplomacia e do fortalecimento das instituições multilaterais. Sua voz ecoa como um chamado urgente para que líderes e sociedades se unam em torno de uma visão comum: resolver disputas de forma pacífica.
Segundo Guterres, o risco atual é de permanecermos presos a um impasse geopolítico em que cada parte se enclausura em seus interesses imediatos, em vez de cultivar a grandeza de espírito e a disposição de agir pelo bem comum. Para ele, só haverá paz sustentável quando prevalecer o respeito mútuo, a negociação e a disposição de ouvir e ser ouvido.
Nesse sentido, o Secretário-Geral lançou a proposta de uma Nova Agenda para a Paz, que sublinha a necessidade de prevenir os conflitos antes que se tornem guerras declaradas; promover a inclusão de mulheres, jovens e sociedade civil nos processos de construção da paz; reduzir as tensões geopolíticas por meio da diplomacia ativa; fortalecer mecanismos multilaterais que possibilitem mediação e negociações mais eficazes.
Ele também tem feito apelos por cessar-fogo, lembrando que somente o silêncio das armas abre espaço para o diálogo, para a ajuda humanitária e para negociações sérias em busca de soluções duradouras.
Mas o diálogo não é apenas uma estratégia prática: é também um caminho ético. Em sociedades marcadas por polarizações e violência, escolher o diálogo significa escolher a humanidade, a dignidade e a justiça como fundamentos da convivência. É reconhecer que cada vida importa e que nenhuma causa justifica a perpetuação do sofrimento humano.
Mas você, leitor, que chegou até aqui, deve estar se perguntando: o que o discurso do Secretário-Geral tem a ver com o Brasil, um país pacífico que não se envolve em conflitos desde o final da 2ª Guerra Mundial, com a saúde, e também com a ética? A resposta é: tudo.
Vivemos tempos de conflitos ideológicos, em que pensamentos divergentes muitas vezes são tratados como ameaças a serem aniquiladas. A polarização extrema não permite o diálogo, em que apenas falamos sem nos dar a chance de ouvir. Na saúde, esse caminho é ainda mais perverso: a ausência de diálogo pode significar o agravamento de uma doença ou até mesmo a morte. Eu, que acompanho dezenas de eventos setoriais, vejo de perto o quanto profissionais, gestores, pacientes e entidades de classe se beneficiam quando a escuta e o entendimento mútuo são colocados em primeiro plano.
Em debates, por exemplo, com a ausência de representantes dos planos de saúde, é nítida como a busca de soluções comuns fica mais complicada. E o conflito ganha proporções alarmantes. Dados do Conselho Nacional de Justiça revelam que o número de ações contra planos de saúde dobrou nos últimos quatro anos, passando de 141 mil novos processos, em 2020, para quase 300 mil, em 2024.
Reafirmar o valor do diálogo, é ratificar não só nossa humanidade, mas também a base ética que deve sustentar a saúde. Assim como nos lembra António Guterres, a paz nunca virá das armas, a solução em saúde nunca virá do conflito, mas sempre da coragem de conversar, escutar e buscar juntos o bem comum.
José Roberto Luchetti é jornalista e escritor, sócio da DOC Press.
* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade do autor e não, necessariamente, a opinião do IES