O Preço da Má Formação Médica: Médicos Malformados, Universidades Fracas e os Danos Irreparáveis ao Paciente.

Por Marcos Tadeu Machado

 

Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma explosão no número de Faculdades de Medicina, movida mais pela lógica do lucro do que pela necessidade de formar bons profissionais. O resultado é alarmante: Universidades mal estruturadas, formação deficiente e médicos inseguros entrando no mercado de trabalho. Para o paciente, isso se traduz em riscos concretos e, muitas vezes, irreparáveis.

De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil conta atualmente com 390 escolas médicas, distribuídas em aproximadamente 250 municípios. Esse número representa um crescimento significativo em relação às 180 instituições existentes até 2010, evidenciando uma expansão acelerada no setor.

A maioria dessas escolas é privada e muitas foram estabelecidas em municípios que não atendem aos critérios mínimos de infraestrutura para a formação médica adequada. Segundo levantamento do CFM, 78% dos municípios que sediam escolas médicas não possuem a infraestrutura necessária, como número suficiente de leitos hospitalares, equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) e hospitais de ensino. Esse dado revela um cenário ainda mais crítico do que se imaginava.

Quando um médico não está devidamente preparado, os erros não são uma exceção: tornam-se parte do dia a dia. Prescrever medicamentos incompatíveis com a condição do paciente pode resultar em reações adversas graves ou até mesmo morte. Médicos mal treinados podem interpretar de forma errada um exame de imagem, deixando passar infartos, aneurismas ou tumores em fase inicial. Aplicar um injetável de forma incorreta pode provocar infecções graves ou danos neurológicos, dentre outros, e há casos documentados de perfuração de órgãos durante procedimentos que deveriam ser rotineiros. Um simples erro no diagnóstico pode levar à morte.

Muitos médicos recém-formados solicitam exames em excesso para compensar a falta de segurança clínica, atrasando diagnósticos e aumentando os custos para pacientes e para o sistema de saúde.

Esse cenário, além de colocar vidas em risco, desvaloriza o profissional médico honrado e sério, que investiu anos em estudo e dedicação para exercer a Medicina com excelência. Quando a sociedade passa a desconfiar da competência médica como um todo, por conta da má formação de alguns, a imagem da profissão é injustamente arranhada, comprometendo a relação de confiança entre médico e paciente.

A má formação médica é um problema coletivo. Universidades que tratam o curso de Medicina como um negócio e não como uma missão social têm grande parte da culpa. Mas também há falhas do Ministério da Educação, que durante anos flexibilizou as exigências para a abertura de cursos. Atualmente, há projetos em tramitação no Congresso que propõem a criação de um Exame Nacional de Habilitação Médica, obrigatório para todos os recém-formados, a exemplo do que já acontece na Ordem dos Advogados do Brasil para os bacharéis em Direito.

A medida poderia funcionar como uma barreira de proteção para a sociedade, garantindo que apenas quem tem competência mínima entre no mercado. Além disso, é fundamental reforçar a fiscalização das escolas existentes, fechando aquelas que não cumprirem padrões mínimos de qualidade. E, sobretudo, investir na formação continuada dos médicos já atuantes, pois a Medicina evolui constantemente e exige atualização permanente.

Enquanto o Brasil flexibiliza, a China impõe um modelo rigoroso e estatal para garantir qualidade na formação médica. Lá, a medicina é uma carreira de Estado, não um negócio privado. Apenas os cérebros mais brilhantes, aprovados no vestibular mais difícil do mundo, ingressam na medicina. A formação é imersiva e integral, centrada no hospital, com supervisão constante e foco não apenas na técnica, mas também no caráter e na resistência à pressão.

O sistema de saúde chinês adota tolerância zero para corrupção, com regras rígidas e punições severas para relações ilícitas com a indústria. Esse modelo prova que não há espaço para ética onde não há competência. A segurança do paciente começa com excelência inflexível na formação.

A Medicina é uma profissão onde o erro não se mede em perdas financeiras, mas em perdas humanas. Um país que negligencia a formação de seus médicos compromete não apenas a vida de seus cidadãos, mas também sua confiança no sistema de saúde como um todo.

Resgatar a seriedade do ensino médico no Brasil é urgente. Universidades precisam ser espaços de excelência e ética, não de comércio de diplomas. O paciente que muitas vezes já enfrenta filas, falta de medicamentos e hospitais lotados merece ser atendido por profissionais capacitados, humanos e tecnicamente preparados para cuidar da vida.

Porque, no final das contas, quando a formação é fraca, quem paga é o paciente.

 

Referência:  Conselho Federal de Medicina (CFM)- 78% dos municípios que sediam escolas médicas não possuem a infraestrutura adequada.

 

 Marcos Tadeu Machado é membro do Conselho de Administração do Instituto Ética Saúde e um de seus fundadores.

 

* A opinião manifestada é de inteira responsabilidade do autor e não, necessariamente, a opinião do IES

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